O roncador ao lado
Dormir com alguém que ronca é péssimo. Mas dormir com um desconhecido que ronca é pior. Pois é, peguei um voo de São Paulo para Washington e, como se já não fosse ruim o suficiente pegar o assento do meio em uma viagem de nove horas, o ser humano do meu lado roncava como se não houvesse amanhã. Juro, como um porco. Dei umas cutucadas nele, mas nada aconteceu. Digo, as roncadas continuaram. Tentei os fones de ouvido do centro de entretenimento da aeronave, mas nada.
Meu pai é desse tipo que ronca um monte. A gente fechava todas as portas entre nosso quarto e o dele (que, na verdade, eram só duas) e o barulho era tanto como se ele estivesse bem ao nosso lado. Um inferno! Minha mãe desistiu de dormir com ele depois de 20 anos. E ainda agüentou bem, eu não suportaria uma semana.
É um negócio que tem conserto e é fácil, mas meu pai é muito preguiçoso. Argumentamos tudo: que isso faz mal, que ele tem apnéia noturna e pode morrer, que quando ele vai viajar, as pessoas se incomodam. Sabe qual é a resposta? “Eu durmo, se os outros não dormem, é problema deles”.
Olhei no dedo do meu vizinho de avião e ele tinha uma aliança no dedo. Fiquei imaginando que a esposa dele também deve se incomodar, também deve ficar embaraçada pelo cara (a “vergolha pela pessoa”), deve desistir e ir dormir no sofá às vezes. E que ele responde a mesma coisa.
Apelei para o volume máximo do meu iPod. Além de quase ficar surda, o barulho não disfarçava o problema do meu colega de voo. Já com raiva da situação e com medo de falar alguma coisa e acabar batendo no cara só de imaginar ele ser folgado como meu pai, achei imelhor encontrar outra solução.
Peguei minhas leituras, fui pra parte de trás do avião e lá fiquei lendo. Três horas. Uma maravilha. Quando terminei, já estavam servindo café da manhã. E o belo adormecido acordou feliz da vida.
Sem comentários ainda
Seja o primeiro a comentar!